O que fez de Marcos um santo
No Brasil, a posição de goleiro é permeada pelo sincretismo religioso, e não raro as defesas aparentemente impossíveis são creditadas ao divino. Os saltos elásticos e os reflexos felinos que evitam o gol dos adversários chegam a ser comparados a milagres. É o caso, por exemplo, da proeza do inglês Gordon Banks em cabeçada de Pelé na Copa do Mundo de 1970, talvez a maior defesa de todos os tempos.
Marcos Roberto Silveira Reis, que se aposentou no último dia 5, também salvou o Palmeiras e a seleção brasileira várias vezes.
Mas não foram “apenas” as defesas milagrosas que o canonizaram como São Marcos de Palestra Itália. A mais lembrada delas, aliás, ocorreu na cobrança de pênalti do exímio Marcelinho Carioca, do Corinthians, na Taça Libertadores de 2000 – o lance manteve o arquirrival distante do tão desejado título continental.
No esporte das multidões, o goleiro nascido em 1973 em Oriente, um município com seis mil habitantes a mais de 300 km de Descalvado, definitivamente não é só mais um!
A começar pelo fato de que defendeu o gol de um único clube ao longo dos seus 19 anos como profissional, um caso exemplar – e, infelizmente, cada vez mais incomum – de amor (incondicional) à camisa.
A ponto de o próprio jogador-torcedor admitir em 2002, depois de desistir de uma oferta milionária de uma das equipes mais importantes da Europa: “Deixei de ser apenas um jogador de futebol quando recusei uma proposta de R$ 45 milhões para jogar no Arsenal, da Inglaterra, e preferi disputar a Série B do Brasileiro pelo Palmeiras”.
Mais do que isso, enquanto o jogo de bola entrava na ordem pós-contemporânea dos heróis sem pátria arregimentados pela grana e das celebridades sem conteúdo, Marcos se destacava ao esbanjar simpatia em entrevistas moduladas por seu sotaque interiorano.
E graças às declarações bombásticas apaixonadas – e totalmente sinceras! – que não conseguia conter após ter sido derrotado junto com o seu querido Verdão, era o alvo preferido dos microfones.
Prova de sua espontaneidade incomparável era que ele mesmo reconhecia publicamente que “falava muita bobagem e precisava ficar quieto”.
Estranhamente no esporte mais popular do mundo, o mais acessível ao povo e o mais praticado pelo povo, a simplicidade de Marcão, despreocupado com a careca e quase sempre com a barba por fazer, tornava-se cada vez mais singular à medida que avançavam a vaidade e a artificialidade entre craques das gerações de Robinho, Neymar e cia.
E foi assim que o goleiro palmeirense se consagrou como ídolo de todas as torcidas, santo de todos os fiéis!
Escrito por Marcelo Pecenin às 16h59
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Pontapé inicial. E os campeonatos estaduais no Brasil*
Agradeço aos editores da “Folha de Descalvado” a oportunidade de voltar a fazer colunismo esportivo em jornal impresso.
Ainda mais numa Folha como esta, cujo diferencial em relação aos concorrentes locais começa pelo lema: “um jornal a serviço da cidade” – o que, diga-se de passagem, estava faltando por aqui.
Neste espaço, pretendo publicar comentários sobre esportes, principalmente futebol, através de uma abordagem que não chega a ser inovadora, mas não deixa de ser inusitada: menos específica e mais ampla.
Em outras palavras, o objetivo é estimular a reflexão sobre o(s) significado(s), a influência e os desdobramentos dos acontecimentos esportivos na sociedade contemporânea sem exigir uma pesada bagagem de referências técnicas e históricas sobre o assunto.
O público-alvo desta coluna é toda pessoa, homem ou mulher, amante do esporte ou “somente” da vida, que resolva dedicar uma pequena parcela do seu tempo para ler este e os próximos textos – e é claro que ficarei muito agradecido por isso.
Os campeonatos estaduais de futebol da Primeira Divisão são o objeto desse trabalho desta vez.
É numeroso e respeitável o grupo de comentaristas esportivos que pregam a extinção dessas competições.
Alegam que os estaduais, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, atraem pouco público aos estádios, além de “não valerem nada”, isto é, não recompensarem o time campeão com vaga em torneios internacionais.
Os que defendem a tese argumentam, ainda, que na Europa, onde o futebol é atividade digna de tratamento profissional exemplar em todos os seus aspectos, inclusive o administrativo, não existem competições regionais.
Por sua vez, os entusiastas dos campeonatos estaduais, entre os quais estão multidões de torcedores, apelam para a rivalidade tradicional entre equipes locais – Corinthians versus Palmeiras, Flamengo versus Fluminense etc. – e explicam que o Brasil, uma união federativa com dimensões continentais dividida em 26 Estados e um Distrito Federal, é palco imprescindível desse tipo de competição.
Os argumentos que sustentam as duas posições são válidos. E, de fato, os torneios regionais parecem não ter sentido nem importância no continente europeu, cuja maioria esmagadora dos países possui extensão territorial modesta e divisão política diferente da nossa.
Mas alguém poderia rebater que os Estados Unidos são uma nação com mais de nove milhões de km2 e 48 unidades federativas e que, apesar disso, os esportes mais populares se organizam apenas em ligas nacionais, como a NBA (Associação Nacional de Basquete) e a MLB (Liga Profissional de Beisebol).
Neste sentido, vale contra-argumentar que o povo norte-americano, graças à sua formação histórica e sociocultural, ostenta sentimento de integração nacional muito mais intenso do que o nosso. Em outras palavras, enquanto “eles” são conhecidos mundialmente pelas frequentes exibições de patriotismo, nós nos reconhecemos antes como paulistas, cariocas, gaúchos do que como brasileiros.
Graças a essa impressão, não são poucos os torcedores paulistas que, ao ler notícias ruins sobre o campeonato estadual do Rio de Janeiro, atribuem os fatos negativos à suposta falta de inclinação dos habitantes do Estado fluminense à organização.
O futebol gaúcho, por seu turno, não escapa da pecha de violento, que motiva frases como “No [Rio Grande do] Sul, os jogadores batem até na mãe”, frequentes na boca de paulistas, cariocas, mineiros...
Enfim, ao conferir certas características ao modo como se joga bola nos outros Estados, o torcedor brasileiro distancia-se das qualidades e defeitos pelos quais não se reconhece e, ao mesmo tempo, reafirma sua identidade estadual – tudo isso por meio do futebol!
Esse processo cria para os nossos torcedores uma sensação regional de “nós diferentes deles” – e até de “nós contra eles” – e consequentemente mantém acessa a chama do significado e da necessidade dos campeonatos estaduais no Brasil.
* Texto publicado em coluna no jornal "Folha de Descalvado" no dia 7 de janeiro de 2012.
Escrito por Marcelo Pecenin às 12h23
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Blog reativado!
Depois de um longo e tenebroso inverno, este blog voltou à ativa!
E a partir de amanhã, sábado, passará a abrigar os textos que começarei a publicar em uma coluna no jornal "Folha de Descalvado".
Escrito por Marcelo Pecenin às 16h11
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Mídia, mídia...
O título da postagem foi contribuição de um amigo.
Mas este comentário não se estende a toda a mídia esportiva brasileira, e sim a uma porção dela.
Uma porção bastante representativa, por sinal.
Porque, na verdade, se trata de uma emissora da televisão nacional que transmite partidas da primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol.
Emissora que dá voz a comentarista que, explorando a demagogia que o torna “o mais comentado do Brasil” na opinião de um colega de programa, criticou a diretoria do Santos pela demissão do treinador Dorival Júnior na última terça-feira, após o entrevero com o atacante Neymar.
Emissora que, no dia seguinte à derrota do Peixe para o Corinthians em plena Vila Belmiro, ocorrida na última quarta-feira, editou reportagem recheada de desaprovações e grosserias dos torcedores santistas à decisão da cartolagem de seu clube e em defesa de Dorival.
Até a não-convocação do camisa 11, que foi identificado como pivô da queda do ex-comandante técnico, para amistosos que a seleção brasileira disputará nos próximos dias 7 e 11 foi tratada como castigo merecido.
O tom mudou, no entanto, no último domingo, quando a emissora exibiu matéria sobre a condição sobre-humana de pressão e cobrança de que Neymar padece e sobre a paciência de que carece.
Em suma, o craque foi de garoto-problema a garoto carente, incompreendido, que precisa de colo.
E tudo isso graças, em grande parte, à goleada dos Meninos da Vila em cima do Cruzeiro por 4 a 1 um dia antes. No clássico, Neymar brilhou, deu assistências para gols dos companheiros e fez o seu, fechando o placar.
Dessa forma, não se pode fechar os olhos, na prática do futebol profissional, para o papel da mídia esportiva e seus discursos na construção de saberes e verdades – ou, pelo menos, efeitos de verdade, versões – que conduzem nossa interpretação de interlocutores acerca dos acontecimentos do jogo e de seus personagens.
É preciso, portanto, receber com desconfiança as notícias, as quais não passam de meras versões da história, que certas emissoras nos entregam prontas, mastigadas.
Porque agora, passada uma semana da saída de Dorival Júnior do Santos, o caso parece ter ganhado um efeito de fim. Não só pela fugacidade dos assuntos no dia-a-dia do Jornalismo, mas também porque o treinador já se encontra “distante”, soçobrado na penúltima colocação do Brasileirão no comando do decadente Atlético Mineiro.
E, infelizmente, na esteira desse processo, também acabaram ficando para trás os temas importantes que a queda de braço entre Neymar e Dorival levantou e que deveriam ter sido melhor discutidos, aprofundados, inclusive nos meios de comunicação de massa. Só para citar alguns: a velha desvalorização do trabalho dos técnicos no cenário nacional, o desrespeito à hierarquia em favor do apelo financeiro ostentado pelo craque, a exploração mercadológica da imagem e do corpo psicofisicossocial do atleta, a carência de Psicologia do Esporte no futebol profissional brasileiro.
Escrito por Marcelo Pecenin às 20h46
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Lamentável e compreensível
A demissão do técnico Dorival Júnior do Santos, a qual vazou na noite de ontem para a imprensa, revela a (falta de) importância que a cartolagem brasileira confere aos treinadores.
E a todos os nobres valores que se atrelam à sua permanência no cargo – planejamento, controle da receita financeira, estrutura, enfim, coisas com as quais a grande maioria dos nossos clubes só se preocupa no discurso; e não na prática.
Por isso, a atitude dos dirigentes santistas pode mesmo ser considerada lamentável, como classificou o repórter esportivo da TV Bandeirantes Leandro Quesada em seu blog. Mas também é compreensível, como sugere o jornalista e colunista da “Folha de S. Paulo” Juca Kfouri.
Porque o ex-técnico do Peixe teria descumprido acordo com a diretoria do clube ao vetar Neymar da partida contra o Corinthians agendada para a rodada de hoje do Campeonato Brasileiro.
E se o craque mereceu punição por ter desrespeitado ordens de seu superior em campo, os cartolas alvinegros, para manter a coerência no tratamento da(s) querela(s) entre jogador e treinador, não poderia deixar este passar incólume.
Mas daí a punir um que fatura R$ 3,9 milhões por ano com multa de pouco mais de R$ 50 mil e o outro com a perda do emprego... quanta diferença! É... talvez a atitude dos dirigentes santistas talvez não seja tão compreensível assim. Em tempo: será que a chegada de Dorival Júnior ao mercado nacional de técnicos desempregados ajudará o São Paulo a finalmente encontrar o tão esperado comandante experiente e efetivo para sua equipe profissional?
Escrito por Marcelo Pecenin às 01h25
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Palmeiras 0 x 2 São Paulo
No duelo entre os treinadores Luiz Felipe Scolari e Sergio Baresi travado anteontem, no estádio do Pacaembu, pela 33ª rodada do Campeonato Brasileiro, a experiência do primeiro levou a pior contra a juventude do segundo.
Experiência que, de forma contraditória, faltou ao pentacampeão mundial Felipão no lance que gerou sua expulsão, ainda no primeiro tempo, após acusar o árbitro da partida de desconhecimento das regras do jogo.
E juventude que, aliada a uma tarde de muita inspiração, sobrou também a Lucas, ex-Marcelinho.
Promovido da equipe de juniores do São Paulo, o meia abriu o placar aos 11 min do segundo tempo e, 20 minutos depois, deu assistência com categoria para o gol do centroavante Fernandão.
Mas se o técnico do Palmeiras declarara que seus atletas pareciam “jogadores de várzea” alguns dias atrás, anteontem certamente não esteve sozinho na reclamação: a etapa inicial do clássico terminou sem que nenhuma das equipes tivesse acertado um chute sequer na meta adversária.
Melhor para o Tricolor, que disputou grande parte da partida apenas para não perder: com um único atacante, três zagueiros e cinco cabeças-de-área – antes do intervalo, o volante Zé Vitor já estava no lugar do meia-atacante Ilsinho, lesionado.
Reflexo da condição incerta na qual os cartolas do Morumbi mantêm seu treinador, a retranca de Baresi, que vem irritando os torcedores, talvez persista enquanto a continuidade do interino no cargo estiver constantemente ameaçada por resultados negativos.
Tanto que os comentaristas de futebol mais prestigiados da imprensa nacional foram unânimes ao afirmar que o São Paulo “achou o primeiro gol, e o segundo veio como consequência” – o rival alviverde viu-se obrigado a atacar mais, afrouxando sua marcação no meio-de-campo e abrindo espaços em sua defesa.
Para encerrar, felizes ficarão os sãopaulinos se o ex-Marcelinho repetir no clube do Morumbi o sucesso que o xará famoso, o Carioca, fez no Corinthians.
Escrito por Marcelo Pecenin às 23h58
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(Mais uma vez) Neymar: discursos, identidade, excessos
Repito: não acredito que Neymar seja uma mera vítima do sistema de exploração mercadológica do corpo e da imagem das estrelas do futebol mundial pelos agentes do marketing esportivo e pela mídia.
Sistema cujo apetite tem-se mostrado cada vez mais voraz, diga-se de passagem.
Na última quarta-feira, em partida contra o Atlético Goianiense válida pela 22ª rodada do Campeonato Brasileiro, o camisa 11 do Santos aprontou mais uma lambança ético-moral. Desta vez, desacatou a autoridade do técnico Dorival Junior ao xingá-lo abertamente pela proibição à cobrança do pênalti que, pelos pés do companheiro Marcel, resultou no quarto gol da equipe, consolidando a vitória.
O problema de Neymar, na humilde opinião deste blogueiro, que definitivamente não pretender bancar o psicólogo, tem a ver com linguagem/discursos e identidade.
Tanto se fala, se escreve, se publica e se insiste sobre seu talento indiscutível para dribles e outras jogadas ofensivas de efeito – inclusive até que teria evitado a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo deste ano – que é quase inevitável que o craque não construa uma autorrepresentação, uma imagem de si mesmo superestimada e inabalável.
Agora, quando o jogador se percebe em situações ou diante de discursos os quais julga contestar ou até mesmo ameaçar a projeção de sua autoidentidade, tornam-se igualmente quase inevitáveis a hesitação, a insegurança e o(s) conflito(s) interno(s) e externo(s).
Mas muitos podem responder que o também astro santista Paulo Henrique Ganso, pela simplicidade que demonstra nas entrevistas e pela maturidade que esbanja em campo, não mete os pés pelas mãos apesar de ser "produto" do mesmo sistema.
Sem dúvida.
E é por isso que a condição de Neymar em problemas como o que aconteceu na Vila Belmiro na última quarta não é a de mera vítima. Porque ele tem alternativas ao caos e pode tomar decisões diferentes.
Tem, por exemplo, modelos de comportamento adequado do ponto de vista profissional em que se mirar entre os colegas de clube – o próprio Ganso e o capitão Edu Dracena.
E, em breve, talvez tenha orientação capaz de suplantar sua provável falta de estrutura familiar – o fato de o pai de Neymar ser ex-jogador de futebol não o abona como grande conselheiro.
Mas isso se o Santos enfim resolver contar com um departamento de Psicologia Esportiva, setor mais do que indispensável a clube partidário da formação de craques e da promoção de jovens promessas que costumam ser mais assediados do que seus treinadores desde as categorias de base.
Escrito por Marcelo Pecenin às 12h03
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O "milionário" Neymar e os efeitos da cultura do futebol brasileiro
Há 10 dias, após vitória sobre o Avaí por 2 a 1 no Campeonato Brasileiro, o atacante do Santos Neymar, cuja habilidade para dribles dispensa elogios, foi acusado pelo técnico Antônio Lopes de ter-se insinuado “milionário” aos adversários, supostamente ostentando que “ganha muita grana”.
Apoiado por companheiros de clube, o camisa 11 santista afirmou que “não falou nada para ninguém” e alegou que eram seus marcadores que estavam “pegando pesado”.
Acredito que pouco importe descobrir quem falou a verdade nesse caso.
Até porque, em atividades que suscitam paixão arrebatadora e competição acirrada como o futebol, cada lado envolvido na disputa costuma ter e defender sua própria versão da história.
Assim funcionam a produção e a circulação de discursos dentro e fora do campo do jogo.
É provável, portanto, que muitos dos jogadores convocados para a difícil tarefa de parar Neymar, além de passarem da conta na agressão física ao craque, tentem intimidá-lo psicologicamente com insultos morais e promessas de “quebrar a perna”.
Assim como também é possível que o atacante, em resposta às investidas dos adversários, tenha-se gabado da vultosa conta bancária que o novo contrato com o Santos lhe garantiu – salário mensal de R$ 500 mil.
Neste sentido, o imbróglio revela indiretamente um dispositivo característico da cultura futebolística brasileira o qual rege os comportamentos e determina o que (não) pode e (não) deve ser dito, instalando incitações e interdições do dizer que incidem, inclusive, sobre a recepção e interpretação dos discursos.
Em outras palavras, não que o atleta brasileiro de futebol profissional não possa tornar-se rico.
Pelo contrário: o multimilionário mercado da bola e a forma superexpositiva como nossos craques são celebrizados na mídia segundo a lógica da cultura pop os impulsionam à ascensão socioeconômica vertiginosa.
Mas eles não se podem dar ao luxo de cometer o “pecado” culturalmente grave de esquecer-se de que foram pobres uma dia – e quem afirma isso não é este humilde blogueiro não, mas a antropóloga da UFF (Universidade Federal Fluminense) Simoni Guedes, renomada no campo dos estudos socioculturais sobre o esporte das multidões. Talvez seja por isso que é tão cobrada de nossos astros a tal humildade, uma virtude cultuada como uma espécie de vacina antimarra, capaz de imunizá-los contra o mascaramento que assola os altos escalões de trabalhadores da bola.
Reflexo dessa pressão foi, também segundo a antropóloga, a decisão de Cafu de escrever “100% Jardim Irene” na camisa verde-e-amarela durante a comemoração do pentacampeonato mundial, na Copa de 2002: a lembrança da comunidade pobre onde nasceu o ex-capitão da seleção brasileira respondia aos brasileiros que o acusaram de “vender” a final do Mundial de 1998, vencida surpreendentemente por 3 a 0 pela França, por dinheiro de patrocinadores.
É claro que Neymar não pode ser tratado como vítima de um sistema de exploração mercadológica que transforma boleiros em “popstars”, catapultando-lhes o sucesso profissional e o apelo midiático, mas lhes desestabilizando a vida pessoal com cobranças moralistas.
Também porque bobo no futebol profissional de hoje em dia só mesmo o torcedor que vai a estádios no Brasil esperando ter seus direitos de consumidor respeitados.
Mesmo assim, é curioso – para não dizer triste ou decepcionante – perceber que, no limite do efeito de generalização proposto pela cultura, ainda não conseguimos abandonar o estigma do sucesso profissional destituído de uma certa arrogância, o que talvez tenha levado o craque do Santos a insultar seus marcadores ou os adversários a acusá-lo de tê-los humilhado. Nem nos livrar da tendência de supervalorizar o êxito aparentemente derivado do talento inato – o talento para brilhar no futebol ou para tocar um instrumento de ouvido, entre outros. É a mesma lógica que, na escola, por exemplo, nos leva a enaltecer o “espertinho” que consegue aprovação sem esforço e a desprezar o “cdf” pelas notas altas conquistadas graças à preparação com afinco. É a mesma lógica que, no futebol, nos leva a endeusar atletas geniais como Neymar, mas a atribuir-lhes um status que, de modo contraditório, já não se resigna mais à humildade que será cobrada deles tão logo cometam o menor deslize de comportamento.
Escrito por Marcelo Pecenin às 17h21
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Atlético-MG 2 x 3 São Paulo
Atlético Mineiro e São Paulo fizeram anteontem, em Ipatinga (MG), pela última rodada do primeiro turno do Campeonato Brasileiro, um jogo de muitas emoções.
No primeiro tempo, graças ao árbitro André Luiz Castro, que apitou os dois pênaltis que garantiram a virada dos mineiros, após o volante Casemiro ter aberto o placar a favor dos paulistas aos 10 min.
O atacante Obina, combinando força e precisão, converteu as duas cobranças: a primeira aos 17 min e a segunda aos 39 min.
No segundo tempo, graças ao treinador Sérgio Baresi, cujas decisões levaram a torcida sãopaulina da euforia ao alívio, sem escapar do nervosismo.
Euforia que explodiu aos 15 min, com a virada após lance de oportunismo do atacante Fernandão – cinco minutos antes, o meia Marcelinho empatara a partida em 2 a 2.
Desde a temporada passada, a dificuldade tática do Tricolor vem sendo a falta de movimentação do meio-campo e a previsibilidade na criação de jogadas ofensivas.
Não era à toa que, até a eliminação na Copa Libertadores da América deste ano, o então técnico Ricardo Gomes escalava o veloz ponta-de-lança Marlos na tentativa de resolver o problema.
Ontem Baresi, que havia armado a equipe com três volantes – além de Casemiro, Rodrigo Souto e Richarlyson – provavelmente a fim de responder com contra-ataques às investidas de um Galo desesperado na zona de rebaixamento –, optou por substituir o lateral-esquerdo Junior Cesar pelo armador Cléber Santana.
Reforçada pela movimentação intensa do camisa 20 no campo de ataque, a mudança re-editou momentos do motor criativo da equipe de 2005-2006, campeã do mundo, da América, do Brasil e do Estado: a dupla Danilo-Júnior.
À semelhança do ex-camisa 10, Santana, mais técnico do que ágil, atuou aberto pela esquerda, atraindo a marcação ora de um lateral ora de um volante e deixando um corredor aberto entre o flanco e meio da defesa adversária, o qual Richarlyson, lembrando o ex-lateral-esquerdo, invadia com velocidade.
Tanto que foi o coringa quem fez o cruzamento rasteiro para o gol de empate e quem exigiu defesa complicada de Fábio Costa aos 24 min da etapa complementar, após chute cruzado do bico da área mais uma vez pelo lado esquerdo.
Mas o nervosismo não tardou a chegar à torcida sãopaulina. Veio, na verdade, aos 30 min, quando Baresi sacou Marcelinho para a entrada do zagueiro Samuel.
Com mais um defensor e faltando cerca de 15 minutos para o apito final, a pressão do Atlético-MG e até o risco de empate e – por que não? – mais uma reviravolta no placar seriam inevitáveis.
E foi o que aconteceu.
Ou quase.
Porque, após quatro intermináveis minutos de acréscimo e uma série de chances de gol desperdiçadas pelos jogadores atleticanos, os sãopaulinos enfim respiraram aliviados.
Talvez a situação na qual foi metido pela cartolagem do Morumbi – a conquista de resultados positivos como condição à extensão entre os profissionais – tenha feito o interino Sérgio Baresi, que parece integrar esta geração semiacadêmica de comandantes, esquecer-se de que se têm basicamente duas propostas de jogo no futebol: ou você cria problemas ao oponente ou permite que ele faça isso à sua equipe.
Apesar disso, “Ufa!” para o ex-treinador das categorias de base do São Paulo, que alcançou a segunda vitória consecutiva e levou o time a seis pontos do G4.
“Ai, meu Deus” para Vanderlei Luxemburgo, que não consegue recuperar Diego Tardelli, Ricardinho, Diego Souza e cia. da péssima campanha até agora no Brasileirão.
Escrito por Marcelo Pecenin às 16h25
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O filme do São Paulo
Na esteira do corintiano "Fiel", o São Paulo prepara o lançamento de seu "Soberano".
A produção, cuja estreia está marcada para o próximo dia 17, contará em vídeo a história dos títulos nacionais do clube do Morumbi, o primeiro a tornar-se hexacampeão brasileiro e o único a erguer a taça da competição em três edições consecutivas – 2006, 2007 e 2008.
Ao lado de "23 anos em 7 segundos", saga do Corinthians até o título do Campeonato Paulista de 1977 após mais de 20 anos de fila, os filmes sinalizam a popularização de um gênero que alia os recursos sedutores da linguagem cinematográfica, narrativa de epopeia e enredo futebolístico de caráter histórico-jornalístico.
A combinação é, ainda, temperada com ingrediente infalível do esporte das multidões: o apelo da paixão arrebatadora que os clubes grandes despertam nos torcedores.
E se a moda pegar e o Tricolor paulista decidir romancear nas telas suas conquistas internacionais – três Copas Libertadores e três mundiais interclubes, além de Recopas e Troféus Ramón de Carranza e Teresa Herrera –, conseguirá construir fácil, fácil uma sequência do tamanho de “Guerra nas estrelas”.
Escrito por Marcelo Pecenin às 00h22
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Afinal, o que é o Corinthians após 100 anos?
Uma nação, um bando de loucos, um antro de corrupção ou um time sem estádio?
O que é o Corinthians, que comemorou ontem seus primeiros 100 anos de existência?
Parabéns, aliás, ao alvinegro da capital paulista!
Como nação, o Coringão é formado por mais de 25 milhões fiéis ou sofredores, como se autodenominam os corintianos. E assim ostenta a segunda torcida mais numerosa do Brasil. Torcida que, por um lado, é capaz de fazer inveja a qualquer adversário, já que empurra a equipe o tempo todo e não se furtou a apoiá-la nem sequer quando disputou a segunda divisão do futebol nacional, em 2008.
Mas que, por outro lado, tentou invadir o gramado do estádio do Pacaembu para agredir seus próprios jogadores após a humilhante eliminação da Copa Libertadores da América em 2006.
E que praticou vandalismo em plena festa do centenário, na noite de anteontem, no Vale do Anhangabaú – corintianos subiram em veículos de emissoras de rádio e televisão que cobriam o evento e invadiram espaços restritos, dificultando o trabalho de segurança oferecido pela Polícia Militar.
É nessas situações que a torcida do Corinthians – ou parte dela, para fazer justiça ao torcedor ideal, acompanhado no estádio pela esposa e pela criança de colo, exibido exaustivamente durante as transmissões pela TV brasileira – revela sua faceta de um bando de loucos, para não dizer aloprados.
O clube do Parque São Jorge também já foi um antro de corrupção: quando esteve sob o comando do ex-presidente Alberto Dualib e do executivo da ex-parceira Media Sports Investment (MSI) Kia Joorabchian – ambos foram denunciados por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha pelo Ministério Público em 2007.
Foi certamente por isso que o Corinthians amargou o rebaixamento no Campeonato Brasileiro daquele ano.
E é muito provavelmente pela reincidência em cartolas como Dualib e Kia e em parcerias escusas como a com a MSI que o clube seja acusado de maltratar seus ídolos do passado, ainda seja o único dos quatro grandes de São Paulo a não ter conquistado a Libertadores e, de quebra, não tenha um estádio próprio compatível com o tamanho de sua torcida – o Estádio Alfredo Schürig, a Fazendinha, tem “apenas” 17,9 mil lugares.
Uma nação, um bando de loucos, um antro de corrupção ou um time sem estádio.
O que é o Corinthians?
Nada disso isoladamente.
Porém, um pouco de tudo isso.
Um clube de identidade cindida pela paixão monumental de uma torcida fiel, o inevitável vandalismo de algumas fileiras das organizadas e pela precariedade da estrutura político-econômica que assombra o futebol brasileiro.

Distintivo comemorativo do primeiro centenário corintiano P.S.: o aniversário é do Corinthians, e o presente será um estádio de 48 mil lugares prometido pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para até 2014, quando receberá a abertura da Copa do Mundo.
Mas quem fecha os olhos e faz um pedido é a população de São Paulo – composta de corintianos, palmeirenses, católicos, evangélicos, executivos, motoboys, desempregados, detratores do futebol etc. –, na esperança de que o governador do Estado, Alberto Goldman, e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, cumpram a promessa de não investir dinheiro público em um empreendimento privado.
Escrito por Marcelo Pecenin às 00h14
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A decadência de Luxemburgo
Campeão do mundo com a seleção brasileira em 2002, Luiz Felipe Scolari recolocou Portugal na elite do futebol mundial com o vice-campeonato da Euro-2004 e o quarto lugar na Copa de 2006, na Alemanha.
Agora Felipão está de volta ao Brasil.
De volta para repetir com o Palmeiras o título da Taça Libertadores da América conquistado em 1999, sob seu comando.
O primeiro passo foi dado na última quinta-feira, com a classificação emocionante sobre o Vitória na primeira fase da Copa Sul-Americana, que a partir deste ano passará a premiar o campeão com vaga na Champions League do continente.
Muricy Ramalho é o treinador mais vitorioso da era de pontos corridos do Campeonato Brasileiro.
Foi vice-campeão com o Internacional-RS em 2005 e tricampeão com o São Paulo de 2006 a 2008.
Na edição deste ano, à frente do líder e consistente Fluminense, tudo indica que ratificará sua condição.
Dorival Júnior, do Santos, não precisou de mais de meia temporada para transformar o preterido Neymar num craque de R$ 100 milhões.
O inexperiente Renato Gaúcho alcançou uma final de Libertadores, em 2007, derrotando o todo-poderoso Boca Juniors (ARG) nas semifinais.
Até Celso Roth, tido como xucro por grande parte dos comentaristas esportivos brasileiros, sagrou-se campeão da América – na última quarta-feira, com o Inter.
Enquanto isso, Vanderlei Luxemburgo acumulou acusações de sonegação fiscal, suspeitas enriquecimento ilícito com a negociação de jogadores, a pecha de corroer a estrutura financeira dos clubes pelos quais passou recentemente e algumas demissões, inclusive após o fiasco num ultragaláctico Real Madrid (ESP) – com Roberto Carlos, Beckham, Figo, Zidane, Owen, Raúl e Ronaldo.
Nesse meio-tempo, não conquistou nada além de um punhado de desprezados títulos estaduais.
O que tem acontecido ao primeiro treinador brasileiro a apresentar aspecto professoral, que julgávamos disparado mais inteligente e estrategista do que os europeus, mas que hoje amarga a zona de rebaixamento do Brasileirão – quatro vitórias em 15 partidas, 20 pontos atrás do líder – com seu Atlético Mineiro de elenco milionário?
Escrito por Marcelo Pecenin às 01h09
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Mais pênaltis, menos futebol
A Fifa (Federação Internacional de Futebol Association) estuda inserir prorrogação com gol de ouro e cobranças de pênalti na primeira fase da Copa do Mundo.
Foi o que revelou seu presidente, o suíço Joseph Blatter, a uma publicação alemã na semana passada.
Nada mais invasivo à identidade de uma modalidade que, por princípio e característica, admite o empate como resultado possível.
Os torcedores que vão ao estádio e os que assistem aos jogos em casa sabem disso.
E, nem por isso, o esporte das multidões tem perdido espectadores para basquete, tênis ou qualquer outra modalidade que não pode terminar empatada.
De fato, o empate como meta pode ser considerado uma afronta ao espírito de capitalismo de mercado que paira sobre o futebol profissional atual, extrapolado em sua dimensão de business.
Mas a igualdade no placar contempla uma espécie de democracia típica do futebol, uma das pouquíssimas modalidades esportivas em que uma equipe teoricamente fraca pode bater um adversário mais forte.
Além disso, é praticamente inegável o valor relativo de triunfo/fracasso que pode ser atribuído ao empate.
Empate que costuma ser comemorado como vitória quando arrancado por nações estreantes em Mundiais contra seleções campeãs.
Vide o 1 x 1 entre Nova Zelândia e Itália na África do Sul.
Empate que também tem gosto amargo de derrota quando sofrido nos acréscimos do segundo tempo, instante em que o resultado positivo está prestes a se concretizar.
Pergunte a um time que deixou um título por pontos corridos escapar na última rodada da competição.
Empate que determina classificações e eliminações em torneios com mata-matas.
Que o digam, por exemplo, os clubes brasileiros e outros sul-americanos que disputam a Copa Libertadores.
Se a Fifa abolir mesmo os empates da primeira fase do Mundial, poderá motivar a intensificação da retranca de certas seleções a fim de levar a decisão dos confrontos para a disputa de pênaltis.
A mudança na regra, por um lado, certamente fará recrudescer a emoção da cada vez mais modorrenta etapa de grupos.
Por outro lado, derrubará a qualidade técnico-tática das partidas e o número de gols no tempo regular – exatamente o contrário do que espera Blatter com a medida, cuja aplicação está prevista para 2014, no Brasil. Isso sem contar que, dessa forma, a competição mais importante do futebol poderá acabar-se resumindo a um festival de goleiros endeusados e batedores humilhados. E a uma chuva de clichês como "Pênalti é loteria" e "Pênalti bem batido é aquele que entra" por parte de jornalistas e comentaristas esportivos.
É por isso que, na humilde opinião deste blogueiro, a melhor solução para o problema é estender o período pré-Copa, antecipando o encerramento da temporada dos clubes.
Com mais tempo de preparação e recuperação de craques lesionados, a categoria das melhores seleções, as favoritas ao título, muito provavelmente sobressairá.
Escrito por Marcelo Pecenin às 15h09
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EUA 0 x Brasil 2
A mesma voz que celebrou a volta de comprometimento e respeito à seleção brasileira no início da era Dunga, anunciou, na última terça-feira, a “libertação do futebol brasileiro”, em amistoso contra os Estados Unidos, fora de casa, em Nova Jérsei – e, quando falamos em "voz" na monopolizada transmissão dos amistosos da nossa seleção, sabemos muito bem a quem ela pertence.
Por isso, convém conter a empolgação com o que a imprensa esportiva nacional vem chamando de a volta do futebol-arte à equipe pentacampeã mundial.
Também porque muitos dos jornalistas, comentaristas e torcedores que hoje clamam pela irresponsabilidade de Neymar com a camisa verde-e-amarela acusaram o craque de displicente por causa da cavadinha infeliz na cobrança de pênalti contra o Vitória no primeiro jogo da final da Copa do Brasil deste ano.
Felizmente, o atacante e Paulo Henrique Ganso não decepcionaram na tão aguardada estreia envergando o manto cinco estrelas.
E inevitavelmente aumentaram ainda mais a sensação de que Dunga cometeu crime de lesa-pátria de chuteiras ao não levá-los à última Copa do Mundo.
Mais do que isso, juntamente com Ramires, Hernanes, Alexandre Pato e Robinho, que rende muito mais na seleção ao lado dos companheiros de clube, deram show na terra do espetáculo – gols de Neymar, aos 27 min, e Pato, aos 46 min do primeiro tempo. E mostraram aos relativamente favoritos yankees, entrosados e recém-egressos da campanha positivamente surpreendente na África do Sul, o lugar de supremacia do Brasil na geopolítica da bola.
Durante a preleção do técnico Mano Menezes, o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Ricardo Teixeira, pediu aos jogadores que formassem “a seleção do povo do Brasil”.
Talvez temesse que um desempenho frustrante dos craques do Santos transformasse a “seleção do povo” na “seleção do treinador”, à semelhança do que aconteceu em 1994, graças ao futebol burocrático apresentado pelos comandados de Carlos Alberto Parreira, e neste ano, com Dunga e sua “confraria de fracassados” – termo cunhado pelo comentarista político Arnaldo Jabor para designar a amizade entre Lula e o presidente do Irã.
Teixeira falou como se não tivesse tido responsabilidade pela perspectiva radical que determinou a escolha do treinador após o fiasco de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Roberto Carlos e cia. no Mundial de 2006, na Alemanha.
Mas com Mano, o equilíbrio parece estar no meio.
Meio que agora abriga três jogadores – e mais nenhum volante cabeça-de-bagre.
Porque enquanto Neymar estiver driblando por atacado e pudermos contar com Pato, Nilmar, Luís Fabiano e o próprio Ronaldinho, não há por que não jogar com três atacantes.
E ainda há de arrumar espaço nesse meio-de-campo para o ponta-de-lança Kaká, que jogará em alto nível pelos próximos três anos pelo menos, o meia Diego (Juventus-ITA) e o volante Anderson (Mancherster United-ING).
Escrito por Marcelo Pecenin às 02h06
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A(s) mudança(s) de que o São Paulo precisa
Diferentemente do que se podia esperar, ainda mais depois de sua demissão do Grêmio anteontem, domingo, Paulo Silas não é o novo técnico do São Paulo.
E os cogitados Paulo Autuori e Abel Braga também não.
O substituto de Ricardo Gomes no Tricolor paulista é Sérgio Baresi.
Sem opções confiáveis à disposição no mercado, a direção do clube decidiu lançar mais um “professor” na praça. Ainda que em caráter de provisoriedade.
Mas aparentemente não se tratará de mais um caso como o do então interino Jorginho no Palmeiras da era pré-Muricy Ramalho, no ano passado.
Ou seja, um treinador inexperiente que “fala a língua do boleiro”, como os jogadores gostam de dizer, e com quem os atletas se identificam tanto – talvez porque ambos costumem estrear em cenários conturbados – que passam a buscar energia extra em treinamentos e jogos na esperança de efetivar o novo comandante.
A situação é diferente no São Paulo.
Porque Baresi era treinador das categorias de base, em Cotia, a mais de 40 km a sudoeste do CT da Barra Funda, onde treinam os profissionais.
E, embora tenha comandado a equipe juvenil em triunfo na Copa São Paulo de Futebol Júnior deste ano, é desconhecido dos torcedores sãopaulinos.
Torcedores sãopaulinos que terão de ter paciência.
Porque a escolha do novo nome, economicamente mais acessível do que os preferidos da torcida – entre eles, Emerson Leão e Vanderlei Luxemburgo –, sinaliza o período de renovação timidamente anunciado após o quinto adiamento consecutivo do sonho do tetracampeonato da Copa Libertadores da América.
É muito provável, portanto, que o clube que revelou Cafu, Müller, Rogério Ceni e tantos outros craques em todas as posições volte a apostar em promessas da base em vez de contratar talentos em ascensão – Fernandinho e Marlos, por exemplo – ou repatriar estrelas em baixa – Alex Silva, Cléber Santana e Ricardo Oliveira, por exemplo.
Neste sentido, as recentes presenças constantes dos sub-20 o lateral-esquerdo Diogo, os volantes Casemiro e Wellington e do meia Sérgio Mota no banco de reservas do elenco principal e a promoção do zagueiro Bruno Uvini, o volante Zé Vitor, o meia Marcelinho e do atacante Lucas Gaúcho podem ser reflexo da nova política.
Além disso, figurinhas carimbadas no Morumbi devem respirar novos ares.
Pode ser o caso do coringa Richarlyson, o atacante Dagoberto e do meia Jorge Wagner.
Este não conseguiu repetir nos três anos vestindo a camisa do São Paulo a eficiência em lançamentos, cruzamentos e cobranças de falta que o notabilizou no Cruzeiro, Corinthians e Internacional.
O futuro de alguns jogadores pouco aproveitados desde sua contratação promete não ser diferente.
A exemplo do zagueiro André Luís, o meia Léo Lima e do centroavante Washington, os próximos recém-chegados a serem mnegociados devem ser os Paraíba: o meia-atacante Marcelinho, noticiado como novo reforço do Sport agora há pouco, e o volante Carlinhos, empurrado como moeda de troca em tentativas anteriores.
A grande perda para Sérgio Baresi, porém, pode ser o zagueiro Miranda, que tem chance de seguir o caminho do ex-companheiro Hernanes até o próximo dia 31, enquanto estiver aberta a janela de transferências para a Europa.
Mas o que o São Paulo mais precisa mudar é a obsessão pelo quarto título da Libertadores.
Obsessão que se traduziu na afobação de Rogério Ceni justamente no último lance de esperança da equipe no segundo confronto das semifinais do torneio, na última quinta-feira.
Anteriormente naquela partida, no intervalo, Ceni, que não esconde a ambição de tornar-se o primeiro jogador da história do clube a participar de três conquistas da América, emanara a mesma afobação em rápida entrevista ao repórter da Rede Globo.
“Nós vamos fazer mais um [gol]. Eu preciso chegar a esta final. Eu preciso deste título”, revelou o goleiro, atropelando as palavras enquanto descia rapidamente as escadas rumo ao vestiário.
Proferido com a sofreguidão de quem vislumbra a iminente concretização da meta tão almejada ao mesmo tempo em que teme a frustração inevitável de um fracasso ponderável, o discurso do capitão sãopaulino destoava de sua experiência e liderança, podendo até ter sido prejudicial a seus companheiros, que precisavam de paciência e frieza para derrotar o adversário por dois gols de diferença, o que acabou não acontecendo – o duelo terminou com a insuficiente vitória por 2 a 1.
Isso sim o Tricolor e seu maior ídolo precisam mudar.
Ou melhor, controlar.
Porque a quinta eliminação consecutiva na Champions League sul-americana – todas para um finalista, senão o campeão – definitivamente não é indício de que há algo de podre no reino do Morumbi.
Um reino que, em menos de 10 anos e sob uma mesma gestão, conquistou três Campeonatos Paulistas, o feito inédito do tri-hexa do Campeonato Brasileiro, uma Libertadores e uma Copa do Mundo de Clubes da Fifa (Federação Internacional de Futebol Association).
Escrito por Marcelo Pecenin às 20h22
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